Em cada morador cabe um mundo

Cada pessoa em situação de rua que acolhemos no Coletivo é uma nova história que passa a integrar a nossa própria história institucional.Não se trata apenas de um ou uma a menos nas ruas e um ou uma a mais morando em uma casa ou em um quarto de hotel. Não é uma conta de subtrair ou de somar.

Trata-se da possibilidade de transformar uma vida inteira, abraçando toda a sua complexidade que só vamos conhecer aos poucos com o tempo e a convivência. É sempre um salto meio no escuro, por mais que procuremos entrevistar previamente ou buscar referências com quem conhece a pessoa a ser acolhida. Trata-se também da possibilidade de sermos transformados institucionalmente, entendendo um pouco mais sobre nossos caminhos e limites de atuação e exercitando nossa capacidade de lidar com os desafios, com os imprevistos e com a frustração. Oferecer a um ser humano a oportunidade de um trajeto mais promissor em sua vida é uma responsabilidade e uma abertura para que tambem sejamos capazes de rever nossas certezas e recalcular a nossa rota. Por isso, cada morador promove uma experiência e um exercício de troca mútua e a chance de criarmos algo sempre novo.

‘O povo da rua’ como uma massa homogênea de pessoas com uma história que se repete é uma falácia simplista. Cada pessoa que vemos em barracas e colchóes pelo chão das calçadas tem uma história única de perdas e dores que a levou para tal extremo. Cada uma dessas pessoas tem expectativas e sonhos interrompidos ou abandonados.

São muitas as causas que levam alguém para esse nível de vulnerabilidade. Rupturas e conflitos familiares; violência doméstica; morte de parentes e perda de rede de apoio; desemprego ou renda insuficiente para arcar com um aluguel; problemas de saúde mental e abuso de substâncias químicas são algumas dessas causas. Em um depoimento tocante, uma pessoa, que esteve por longo tempo na rua, contou que há uma ’gota d’água’ - o momento em que viver na rua torna-se a única alternativa -, mas que esse momento é precedido de um somatório de deficiências e carências que levam alguém para essa situação. No seu caso, ela destaca, a deficiência teve início quando ela estava ainda no útero de sua mãe.

Nossos moradores tem identidades muito diversas: homens, mulheres, jovens, idosos, pessoas com mobilidade reduzida, pessoas com questões psiquiátricas ou déficits cognitivos, pessoas com dependência química, pessoas com capacidade de trabalho ou não… O que eles têm em comum são histórias sofridas e muitas feridas na alma. Nossos moradores têm rostos, relatos, vivências, sentimentos e necessidades específicas. Nossos moradores tem limitações, potenciais e desejos individuais. Estar em situação de rua é perder sua identidade e também perder a própria humanidade; é deixar de fazer parte da sociedade e também não ser considerado como um indivíduo. Ter uma casa para morar, voltar, deitar e descansar é o início de um processo desafiador que começa por enxergar-se como um sujeito capaz e um cidadão com direitos para chegar à possibilidade de uma vida funcional e autônoma. Nem todos conseguirão percorrer todo esse trajeto.Sabemos que apenas a moradia não é a solução salvadora para tanta complexidade e falta, mas, estamos convictos de que é o primeiro passo para que cada um, do seu jeito, com a sua energia vital, com a sua capacidade física e a sua bagagem emocional, possa traçar um caminho de transformação. Não é possível sequer vislumbrar um horizonte se a única perspectiva que se apresenta é a que se enxerga no chão de uma rua.

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Para quem quiser contribuir mensalmente, as doações devem ser realizadas, preferencialmente, no dia 1º de cada mês e podem ser feitas por meio de:

Pix: Associação Coletivo Aluguel Solidário
chave e-mail: aluguelsolidario@gmail.com

Transferência Bancária: Sicoob
CNPJ: 55.649.377/0001-68
ASSOCIAÇÃO COLETIVO ALUGUEL SOLIDÁRIO AG: 4028 CC: 7.410-1

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